Ao deixar trave no treino de pódio do Mundial Ginástica Artística de Stuttgart, a expressão era de clara insatisfação. Mas o que num primeiro momento parecia um inconformismo de Simone Biles com o próprio desempenho depois se revelou ser decepção e incredulidade com a nota atribuída ao novo movimento da americana no aparelho.
O que surpreende é que até os próprios jurados, que seguem a determinação do Comitê Técnico da Federação Internacional de Ginástica (FIG), achavam que a multicampeã merecia uma nota maior pela acrobacia.
A revelação foi feita ao GloboEsporte.com pela brasileira Yumi Sawasato. Árbitra internacional da ginástica artística feminina desde o final da década de 1970 e com cinco Olimpíadas no currículo, Yumi explicou que a definição da nota de dificuldade é feita pelo Comitê Técnico e apenas informada aos árbitros que participarão do treino de pódio e, consequentemente, das classificatórias.
Na ginástica artística, os elementos do código de pontuação são distribuídos nas letras do alfabeto, crescendo em um décimo conforme o grau de dificuldade (A sendo o mais fácil, valendo 0,1; B um pouco mais difícil, valendo 0,2, e assim sucessivamente). Na trave, o valor mais alto até então era o G, dado a um duplo mortal com uma pirueta (360º).
Pelo padrão normalmente adotado, apenas mais meia pirueta (mais 180º, totalizando 560º) poderia ser suficiente para configurar um elemento de valor H, já inédito no aparelho. Assim, um duplo mortal com duas piruetas (mais 360º, totalizando 720º) poderia sim configurar um elemento I, dois níveis acima do que há de mais difícil no código atual. O que não ocorreu.
- Nós também ficamos surpresos com o valor. Na trave de equilíbrio, o elemento mais difícil era de valor G, que era com uma pirueta. A mesma saída de Simone, só que com uma. Mas com duas (piruetas), realmente poderia ter sido considerado um pouquinho mais, independente de não ter nenhum elemento H ou I no código. Pelo nível de dificuldade acho que merecia um valor maior. Nós realmente pensávamos que iria ser dado um valor maior para esse elemento – disse Yumi.
A título de comparação, o mesmo duplo-duplo no solo é avaliado como H. Mas a trave é um aparelho que impõe um grau de dificuldade naturalmente maior por se tratar de uma superfície estreita, na qual o equilíbrio é mais delicado, e também por não ter molas, que ajudam na impulsão.
Presidente de Comitê esclarece nota e critica reação de Biles
Presidente do Comitê Técnico da Ginástica Artística feminina, Donatella Sacchi revelou ao GloboEsporte.com que a Federação de Ginástica dos Estados Unidos solicitou uma reconsideração da avaliação e que a mesma já foi negada, mantendo o valor H ao duplo-duplo de Biles. Ela ponderou alguns dos fatores que levaram à decisão.
- O Comitê leva em consideração outros aspectos como o risco potencial, nesse caso uma queda da trave, a segurança dos ginásticas e a direção técnica da modalidade. A diretriz da FIG nos dois últimos ciclos olímpicos foi encorajar a execução perfeita e a beleza na performance artística em paralelo ao desenvolvimento das habilidades.
A insatisfação de Biles com a avaliação não se resumiu à cara fechada no treino de pódio na última terça-feira. Nas redes sociais, a americana ironizou a pontuação, compartilhando uma postagem que criticava o valor do elemento. Na legenda havia uma longa risada e a palavra "besteira". A postura foi criticada por Donatella.
- Ela tem o direito de discordar da decisão e de expressar a decepção dela. Minha única preocupação é sobre a "forma" como ela fez. Sendo um "modelo" e o "ídolo" de tantas fãs mundo afora, eu esperava uma expressão melhor sobre a questão - disse a presidente, usando aspas nas palavras acima destacadas.
Mesmo abaixo do que acreditava valer a acrobacia, Biles ampliou o nível de dificuldade apresentado até hoje na trave. O mesmo aconteceu no solo, aparelho no qual ela apresentou no treino de pódio um triplo duplo (duplo mortal grupado para trás com tripla pirueta). Até então a pontuação mais alta no solo era I, e o elemento que a americana tenta homologar foi avaliado como J.
Simone Biles confirmou que fará o novo movimento do solo em todas as vezes que se apresentar no aparelho, a começar pela classificatória, no sábado, mas não cravou quantas vezes repetirá o da trave. Ela ainda pode apresentar um terceiro novo elemento, desta vez nas barras assimétricas. Mas esta possibilidade ainda será avaliada pela comissão técnica dos EUA e não é tratada como prioridade. Ela precisa acertar a execução dos mesmos, sem quedas, para que sejam batizados com seu nome.
https://globoesporte.globo.com/ginastica-artistica/noticia/ate-juizes-ficam-surpresos-com-nota-baixa-para-simone-biles-no-mundial-de-ginastica-entenda.ghtml